História de Gáfete
Origens e Povoamento Antigo
Gáfete é uma povoação muito antiga do concelho do Crato, distrito de Portalegre, no Alto Alentejo. O território onde se situa apresenta vestígios arqueológicos que remontam a épocas muito recuadas, possivelmente pré-romanas, com numerosas sepulturas cavadas na rocha e edificações dolménicas descobertas durante a primeira metade do século XX. Entre os monumentos megalíticos da região destaca-se a Anta da Tapada da Laje de Peles, situada a cerca de 1000 metros da povoação, embora muito danificada, ainda conserva cinco esteios em posição inicial.
O nome Gáfete tem origem provavelmente árabe, refletindo a presença islâmica na península durante vários séculos. Embora a etimologia exata seja incerta, alguns estudiosos sugerem ligações ao espanhol gafeti (uma planta) ou ao termo Cafede (café/vinho), de origem desconhecida. Esta denominação árabe confirma que a povoação já existia pelo menos durante o período de dominação muçulmana da Península Ibérica.
Período Medieval e Senhorio do Priorado do Crato
Durante a Idade Média, Gáfete integrou-se no território do Priorado do Crato, pertencente à Ordem do Hospital (posteriormente conhecida como Ordem de Malta). Esta poderosa ordem religiosa e militar estabeleceu a sua sede no Crato em 1356, exercendo jurisdição sobre uma vasta área que incluía doze vilas, entre as quais Gáfete.
No censo de 1527, ordenado por D. João III, Gáfete era ainda uma povoação modesta. O registo indica: "Há uma aldeia que se chama Gaffete, 2 légoas da vila a norte, que tem 105 moradores das quais 16 viúvas e 16 molheres solteyras, que vivem por sy, sam trez e dous crellegos". Nesse período, a localidade já possuía uma Igreja Matriz dedicada a São João Batista, que remonta ao século XVI e figura no códice de Pedro Nunes Tinoco, que ilustrou as igrejas do Priorado.
Guerra da Restauração (1640-1668)
Um dos episódios mais marcantes da história de Gáfete ocorreu durante a Guerra da Restauração, que se seguiu ao fim da União Ibérica em 1 de dezembro de 1640. Portugal enfrentou 28 anos de conflito com a Coroa de Castela para assegurar a sua independência sob a nova dinastia de Bragança, liderada por D. João IV.
Durante este período, os habitantes de Gáfete combateram valentemente contra as investidas castelhanas. Como a povoação não dispunha de muralhas defensivas, os Gafetenses construíram uma trincheira de pedra na zona denominada "castelo", onde resistiram aos ataques inimigos e conseguiram obrigar os castelhanos a recuar. Este ato de bravura tornou-se um motivo de orgulho local e foi fundamental para o futuro estatuto administrativo da localidade.
Elevação a Vila e Concelho (1688)
Em reconhecimento pela valentia demonstrada durante a Guerra da Restauração, os moradores de Gáfete dirigiram uma petição ao rei D. Pedro II, não solicitando recompensas pessoais, mas pedindo que "lhes fizesse mercê de fazer Vila ao dito lugar". Na petição, justificavam o pedido afirmando que, "estando o dito lugar junto de Castela, pelo valor com que sempre lhes resistiram", mereciam tal distinção.
O rei, após informação favorável do Provedor da Câmara de Portalegre e dos Oficiais da Câmara do Crato, concedeu a Gáfete o foral novíssimo em 1688. A povoação passou então a designar-se Vila Nova de São João Baptista de Gáfete, em homenagem ao orago da sua igreja paroquial, embora com o tempo tenha regressado à denominação original.
Gáfete tornou-se sede de concelho, com pelourinho próprio, Casa de Câmara, dois juízes, dois vereadores e um procurador do Concelho. O concelho, embora de dimensões modestas (uma légua e meia de comprimento por uma légua de largura), detinha jurisdição civil completa. A vila possuía ainda um Capitão-mor, um Sargento-mor, duas Companhias de Ordenança e uma Companhia Auxiliar, forças que haviam prestado bons serviços durante a guerra.
Desenvolvimento nos Séculos XVII e XVIII
Após a elevação a vila, Gáfete conheceu um período de crescimento demográfico e institucional. Em 1758, a vila contava já com 207 vizinhos (famílias) e uma população de 569 almas (pessoas). Em 1801, o concelho tinha 851 habitantes, demonstrando uma evolução positiva.
A vila desenvolveu infraestruturas importantes para o seu papel de sede concelhia. Além da Igreja Matriz, que foi objeto de modificações e acrescentamentos nos séculos XVII e XVIII, Gáfete possuía cinco ermidas: São Pedro, Santo António, Espírito Santo, São Marcos e Santa Catarina (esta última posteriormente destruída). A Misericórdia de Gáfete, instituída oficialmente em 1698 através de carta de padrão de juro mandada passar por D. Pedro II, mantinha uma capela do Espírito Santo e dispunha de uma renda de 80$000 réis. No século XVIII, a vila tinha ainda uma albergaria para pobres e peregrinos.
Extinção do Concelho e Integração Administrativa
O estatuto de concelho de Gáfete manteve-se até à reforma administrativa de 1836, quando foi extinto no contexto das reformas liberais que reorganizaram profundamente a estrutura administrativa portuguesa. Após a extinção, Gáfete foi integrada como freguesia no concelho de Alpalhão, onde permaneceu até 3 de agosto de 1863. A partir dessa data, passou definitivamente a fazer parte do concelho do Crato, situação que se mantém até aos dias de hoje.
Património e Personalidades
O património edificado de Gáfete testemunha a sua importância histórica. A Igreja Paroquial de São João Batista, com o seu notável altar-mor em talha dourada setecentista, permanece como o coração religioso da freguesia.
Entre as personalidades ilustres ligadas a Gáfete destaca-se José Lúcio Gouveia (1854-1920), que recebeu de D. Carlos I, por decreto de 19 de setembro de 1890, o título de Barão de Gáfete. Descendente de vários capitães-mores de Gáfete desde o século XVII, foi o primeiro e único titular deste baronato. A vila honra a sua memória com um monumento que inclui um busto sobre uma coluna primorosamente esculpida em mármore.
Evolução Demográfica e Atualidade
A população de Gáfete conheceu flutuações significativas ao longo dos séculos. Após o crescimento registado nos séculos XVIII e XIX, atingiu o seu máximo populacional em 1950, com 1897 habitantes. A partir daí iniciou-se um declínio demográfico acentuado: 1480 habitantes em 1960, 1290 em 1981, 1063 em 2001, 856 em 2011 e 688 habitantes no censo de 2021, correspondendo a uma densidade populacional de aproximadamente 15 habitantes por quilómetro quadrado.
Atualmente, Gáfete é uma freguesia com cerca de 46 quilómetros quadrados de área, caracterizada por um ritmo de vida tranquilo, marcado pela agricultura e pelas festas e tradições locais. A Romaria de São Marcos e outras celebrações religiosas mantêm viva a identidade comunitária desta terra que, como refere um texto recente, "não precisa de levantar a voz para afirmar a sua identidade: basta caminhar pelas suas ruas para perceber que aqui se respira história e pertença".
A vila conserva o orgulho do seu passado, simbolizado na igreja matriz, lembrando os tempos em que foi cabeça de concelho e os seus habitantes defenderam corajosamente a independência de Portugal.
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